sexta-feira, agosto 17, 2007

153 - Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 153

  - Infohabitar 153


Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007


Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.



Fig. 01: Vista geral do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira, promovidos pela cooperativa Habipaços, com projecto coordenado pelo . arquitecto Paulo Bettencourt.
Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:
  • Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.
  • Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.
  • E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.

Fig. 02: Vista geral do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora, promovidos pela cooperativa CHC, com projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados na passada semana e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

E apontam-se os dois temas a editar nas duas próximas e semanas:

(iii); a importância da integração urbana e paisagística;

(iv) e, finalmente, a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007

As soluções hoje apresentadas e que mereceram destaque no PRÉMIO INH/IHRU 2007, são



Habipaços, Freamunde, Paços de Ferreira, 32 fogos


Conjunto em Talhô, Paços de Ferreira, 32 fogos promovidos pela cooperativa Habipaços, C.R.L., com apoio da C. M. de Paços de Ferreira, construção da empresa Manuel Roriz de Oliveira, S.A., e projecto e coordenação do arquitecto Paulo Bettencourt.



Fig. 03: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira.
O conjunto da Cooperativa Habipaços caracteriza-se por dois aspectos fundamentais:
  • uma grande unidade entre edifícios e espaços exteriores polarizadores, seja dos acessos aos fogos, seja de remate e enquadramento na envolvente do local de intervenção;
  • e uma assinalável funcionalidade na organização pedonal e de veículos dos residentes, estruturando-se, assim, uma vizinhança de proximidade que é, aliás, também marcada por uma imagem de grande dignidade.


Fig. 04: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira.


Fig. 05: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira; as vistas a partir do átrio sobre a vizinhança.


Ao nível do interior do edificado salienta-se a rara e sempre muito positiva solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores, bem como o cuidado que foi aplicado na iluminação natural dos diversos compartimentos dos fogos.

Há ainda dois aspectos processuais que importa sublinhar nesta intervenção de HCC e que são:
  • a colaboração activa entre município, projectista, cooperativa promotora e construtor;
  • e estarmos em presença de uma colaboração que resultou no desenvolvimento de uma intervenção que é claramente marcada pela racionalidade, sobriedade, dignidade e qualidade construtiva.

Fig. 06: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira; uma vista a partir do interior do edifício.


CHC, Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos


Conjunto na Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos promovidos pela cooperativa CHC, C.R.L. numa parceria com a C. M. de Évora, construção da empresa Algomape, Lda, e com o projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.




Fig. 07: A vizinhança de proximidade do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora.

Trata-se de um conjunto em que se assinala a excelente aliança entre uma activa presença urbana e uma interessante solução residencial funcionalmente diversificada.

Há duas faces neste conjunto:
  • uma mais urbana e que integra uma pequena galeria comercial;
  • e outra mais residencial e marcada por uma pequena praceta agradavelmente arborizada.

Fig. 08: A grande contenção dos espaços comuns do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora; todo o espaço útil é maximizado no interior dos fogos.

As soluções dos fogos são marcadas por uma forte economia espacial nos espaços comuns, para depois se investir o mais possível nas habitações, aliás, marcadas, alternativamente:
  • seja por claro aspectos de racionalidade espacial e de distribuição de funções, com destaque para uma ampla cozinha com varanda de serviço;
  • seja pela cuidadosa inovação na definição de uma zona de varanda/pátio que polariza vãos da cozinha, da sala e da zona de quartos, criando-se um interessante e fresco espaço de transição entre o interior doméstico e a rua, bem aproveitável para diversos usos.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH


Três aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos cooperativos, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007:

(i) O primeiro aspecto é processual e refere-se às evidentes sinergias conseguidas pela associação entre cooperativas de habitação e municípios, através do aproveitamento da capacidade específica da promoção cooperativa, quer na dinamização global das promoções habitacionais de verdadeiro interesse social, quer, especificamente, no contacto com os habitantes e na crucial gestão de continuidade e de proximidade, Desta forma é possível a municípios pouco “equipados” em termos técnicos ou com reduzida prática na promoção habitacional, o desenvolvimento de uma parceria eficaz com cooperativas com provas dadas nesses domínios, assegurando-se, como se referiu, não apenas a concretização de um conjunto habitacional e urbano com qualidade arquitectónica, mas também a gestão continuada e sustentada do mesmo conjunto, e uma gestão que poderá associar soluções de arrendamento de interesse social.

(ii) O segundo aspecto tem a ver com a sempre renovada importância do desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, uma intenção fundamental e desde sempre muito ligada aos objectivos habitacionais cooperativos de proporcionar para além de uma casa, uma potencialidade de convívio e de alguma solidariedade através da formalização de uma tal configuração de vizinhança. Realmente, também se habita a rua ou a praceta que é a nossa, e que de certa forma faz uma agradável transição entre o mundo doméstico, de cada um e de cada família, e o mundo mais urbano e animado que também desejamos; e é interessante evidenciar que é neste nível de vizinhança de proximidade que se devem desfazer e anular, totalmente, todos e quaisquer resquícios que ainda sobrevivam em termos de discriminação por imagens habitualmente mais ligadas a habitação considerada “de baixo custo” ou “social”. Não faz qualquer sentido para as pessoas que habitam em, e que são vizinhos de, conjuntos de habitação de interesse social terem a noção de que as suas habitações ou as habitações vizinhas têm um qualquer estatuto “menorizado” relativamente às habitações envolventes; o respectivo custo e as respectivas áreas poderão ser menores, mas a sua imagem tem de ter toda a dignidade que a cidade exige, e só assim se irá fazendo integração física e social.

(iii) Finalmente, o terceiro aspecto, que apenas aqui se aponta, muito na globalidade, tem a ver com a possibilidade e a necessidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; uma intenção que, afirma-se, pouco tem a ver com mais área e acabamentos mais luxuosos, mas sim, que se liga com mais arquitectura, mas informada e mais sensível, uma arquitectura que trate os espaços do edifício com verdadeiro pormenor, concentrando, racionalizando e “poupando” onde seja possível assim fazer, mas que verdadeiramente crie pequenos mundos domésticos, adaptáveis e ricos. E é interessante poder visitar casas muito racionalizadas e espacialmente contidas (por exemplo em condições mínimas nas escadas comuns), mas onde junto ao elevador é possível olhar o pequeno jardim de vizinhança, onde na sala há lugar para um recanto de trabalho, onde na cozinha há sítio para uma pequena mesa, e onde foi possível criar uma pequena varanda multifuncional. Está realmente “na hora” de se re-equacionarem funcionalidades e caracterizações domésticas.


As imagens da Cooperativa Habipaços são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 16 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 17 de Agosto de 2007.

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