sábado, março 21, 2015

525 - A cozinha para conviver - Assembleia-geral da GHabitar - Infohabitar n.º 525

Infohabitar, Ano XI, 525

Lembra-se a próxima Assembleia-geral da GHabitar

Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade  Habitacional - APPQH

(anteriormente designado "Grupo Habitar - APPQH")

A realizar no sábado, dia 28 de março de 2015, em Matosinhos, na Sede da Cooperativa de Habitação Económica As Sete Bicas, situada na Rua António Porto, n.º 42, 4460-353 Senhora da Hora, Matosinhos.
Convoca-se a 1.ª Assembleia-geral da GHabitar,  em sessão ordinária, para reunir pelas 11h.00, numa sala da Sede da Cooperativa de Habitação Económica As Sete Bicas, situada na Rua António Porto,n.º 42, 4460-353 Senhora da Hora, Matosinhos,

A Convocatória foi devidamente publicitada na edição da Infohabitar de 8 de março: http://infohabitar.blogspot.pt/2015/03/infohabitarano-xi-n.html


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns. Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e continuamos com alguns aspetos sobre o espaço de cozinha e sobre o seu potencial como zona de convívio doméstico.


A cozinha para conviver

Artigo LXXI da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho


O espaço de cozinha para cozinhar, apenas, ou também para conviver?

Cozinha para cozinhar ou para conviver? Uma pergunta que tem como resposta que numa casa é necessário haver um espaço de preparação de refeições, espaço este fundamentalmente funcional e marcado por um dado conjunto de instalações e equipamentos, mas que não deve justificar um dado compartimento, feito dimensionalmente à medida desse conjunto de instalações e equipamentos, como se estivéssemos a conceber uma cozinha de um restaurante doméstico onde, quase sempre, não há “empregados” cuja função é estar nessa cozinha "laboratório" a preparar as refeições de quem habita aquela casa.

Caso esse pólo de instalações e equipamentos esteja associado a um outro espaço doméstico que tenha configuração e caracterização convivial, então teremos um espaço positivo que tanto pode assumir-se como grande cozinha, como pode constituir-se como sala-comum ou sala de família com uma zona específica dedicada à preparação de refeições.


Segundo Sven Thiberg (1), a forma do compartimento, a escolha dos materiais, as características de iluminação e ventilação natural e o contacto com outros compartimentos e espaços vizinhos são aspectos complementares de um bom funcionamento básico da cozinha, mas que têm especial importância no seu papel e conteúdo social, em termos do convívio e do estar familiares.


Fig. 01: Cozinha e zona de refeições de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H4-5, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.


Ligação entre preparar refeições e outras atividades domésticas

A cozinha de preparação de refeições é o espaço doméstico que mais fornecimentos exteriores recebe, é também o espaço doméstico que mais gera resíduos e lixos e é, ainda, um espaço estratégico de produção de bens que ou são consumidos na própria cozinha, ou num espaço de refeições específico. 

Considerando tudo isto a posição da zona onde se preparam as refeições deve ser estratégica e desafogada, quer na sua relação com uma entrada na habitação, quer na sua relação com os referidos espaços de refeições.
Alexander (2) considera que o traçado da cozinha deve privilegiar o desenvolvimento de uma longa bancada insolada (ou pelo menos cheia de luz), a possibilidade de vistas exteriores e interiores significativas (não a vista cortada da parede "à frente do nariz") e a alegria cromática com tons quentes (que podem até quebrar a frieza/uniformidade da luz recebida por janelas, eventualmente, viradas mais a norte - orientação bastante recomendada no hemisfério norte).

São as seguintes as características mais desejáveis numa cozinha onde se tomam refeições com agrado:

  • existência de espaço real para se poder estar à mesa e num sítio agradável;
  • a mesa poder servir para muitas outras actividades, desde o apoio à preparação de refeições ao trabalho e recreio das crianças;
  • e a ausência de ruídos incómodos, como os do funcionamento de máquinas de lavar e secar roupa, o que pode obrigar à instalação destas máquinas em local específico e encerrado.

A possibilidade de se desenvolver um verdadeiro convívio numa cozinha familiar ou numa sala de família que integre uma zona de preparação de refeições, depende, entre outros aspectos da previsão de uma zona de lavandaria doméstica num um espaço próprio e com características definitivas e funcionalmente adequadas, pois não faz qualquer sentido uma vizinhança promíscua entre cozinhar e tratar da roupa.

Hábitos interessantes associados ao espaço de cozinha

A cozinha separada do estar foi, de certa forma, uma invenção numa altura em que havia criados(as) que cozinhavam e serviam na sala de jantar; e por acréscimo podemos pensar o mesmo da própria sala de jantar.

Isto não significa que tais condições não se mantenham, em determinadas situações, e que noutras as próprias famílias não se sintam mais à vontade com situações que se tornaram correntes e tipificadas como estas e que aliás têm vantagens funcionais e ambientais no uso da casa, pois concentram e isolam a produção de ruídos e de cheiros, separando-as de zonas onde se pretende estar em sossego.

Mas no entanto há que interiorizar que os tempos de hoje não são tempos de empregados domésticos, nem são tempos em que há uma parte da família na cozinha, isolada, a cozinhar para uma outra parte da família na sala; se as pessoas quiserem viver assim devem poder fazê-lo, mas, desejavelmente, nunca de uma forma quase obrigatória, que é, de certa forma, a regra, em tantas soluções habitacionais ainda marcadas pela “fatal” zona funcional cozinha/tratamento de roupas e, depois pela outra fatalidade que dá pelo nome de “zona de quartos”, e à qual nos iremos dedicar outros artigos desta série editorial.



Fig. 02: Cozinha e zona de refeições de uma habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 13-14, Arquitetura: Charles Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.

Alternativas de uso da cozinha e de modos de viver a relação cozinha-sala

E há formas expeditas de proporcionar alternativas de uso da cozinha e de modos de viver a relação cozinha-sala, de modos que mantêm a referida possibilidade de relativa discriminação entre quem executa funções e quem as goza, mas que, simultaneamente proporcionam modos de uso da casa mais democráticos, mais actuais e essencialmente mais conviviais.

E é fácil, basta disponibilizar-se uma cozinha espaçosa e com uma capacidade convivial, pelo menos, mínima, proporcionando-se, assim a alternativa ao estar/convívio nesta cozinha ou na sala, sala esta que, havendo limitações dimensionais (orçamentais) poderá ser razoavelmente reduzida, podendo, por exemplo, aceitar as refeições formais de uma forma versátil (por exemplo, numa mesa que se acrescente).


Mas importa considerar que uma tal versatilidade exige, além do tal dimensionamento relativamente folgado e adaptável da cozinha, que esta seja pelo menos minimamente cuidada em termos de acessos e de arranjos e equipamentos, de modo a que as pessoas que lá trabalham e lá convivem, tomando as refeições, se sintam não num ambiente maquinal, que tantas vezes lembra uma grande “casa de banho”, mas sim no âmago, no coração de uma casa; e lá estão certos equipamentos como o fogão para serem aproveitados nesse estimulante sentido simbólico e agregador do convívio e do sentido doméstico. 

A "cozinha de jantar"

Como indica e ilustra Sven Thiberg “uma «cozinha de jantar» (dining-kitchen) com uma espaçosa área de refeições e espaço suplementar para vários trabalhos pode, sendo bem desenhada, adaptar-se ao desempenho de variadas necessidades, proporcionando, cumulativamente, como refere este autor o desenvolvimento dos trabalhos culinários de pé, sentado, ou em cadeira de rodas, o que é uma interessante vantagem complementar (3), e aligeirando a sala de um amplo conjunto de actividades, tornando-as, assim, mais adequada, por exemplo, para formas mais especializadas de convívio (por exemplo enquanto se ouve música) e para o recreio e o trabalho profissional em casa.

Notas:
(1) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 176.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 802 e 803.
(3) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 176.

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Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 525
Artigo LXXI da Série habitar e viver melhor

A cozinha para conviver

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.






[1]     Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 176.

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