segunda-feira, abril 16, 2018

Caracterização geral dos vãos exteriores II - Infohabitar 637



Infohabitar, Ano XIV, n.º 637


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CX



Caracterização geral dos vãos exteriores  II


Segurança contra quedas a partir de vãos e de guardas de pisos elevados

Esta é uma matéria que nem deveria ser aqui apontada, pois é evidente que este tipo de segurança, contra quedas a partir de vãos exteriores e varandas/terraços, deveria ser acautelada, ao máximo, por disposições específicas sobre a alturas dos peitoris e sobre a pormenorização e constituição da parte dos vãos inferior a esses peitoris, ou, em alternativa, mecanismos legais que acautelem as situações de responsabilidade civil associadas às quedas de altura que podem, infelizmente, ocorrer -  pensa-se, por exemplo, e se tal for legalmente possível, na existência de uma declaração assinada por quem assuma gostar de viver em determinadas condições, que podem ser arriscadas no que se refere a quedas.

Não faz, evidentemente, qualquer sentido desenharem-se vãos e guardas que não tenham em conta a protecção contra quedas, mas também fazem pouco sentido normas que obriguem a soluções únicas. Será portanto necessário identificar soluções que garantam, o mais possível, essa segurança, mas contribuindo para a qualidade arquitectónica da solução global e não desperdiçando as potencialidades de vistas e de conforto ambiental desses vão e espaços elevados; e haverá, aqui, matéria para posteriores desenvolvimentos, designadamente, em termos de simples e úteis colectâneas de soluções pormenorizadas.


Segurança contra intrusões físicas e visuais em vãos exteriores térreos ou pouco elevados.

A questão da segurança contra intrusões em vãos exteriores térreos ou pouco elevados é uma matéria que tem de ser considerada, à partida, na solução de fenestração de um dado edifício, pois não faz sentido "esquecer" que essa será logo uma das preocupações dos respectivos habitantes. E atente-se que haverá, com certeza, uma associação entre estes aspectos de segurança contra intrusão e os de protecção da privacidade doméstica.

Não faz sentido que assim não aconteça pois a segurança contra intrusões tem de ser bem acautelada, em pisos térreos ou acessíveis directamente do exterior ou através de galerias comuns, através da consideração de vários aspectos entre os quais se salientam: a altura de janelas, muros e vedações; a visibilidade a partir de sítios muito usados; e a previsão de gradeamentos, gelosias, portadas e fechaduras de segurança.

Naturalmente não faz qualquer sentido que tais cuidados nãos sejam integrados com as respectivas exigências de privacidade visual e de agradabilidade, caso contrário a habitação transforma-se num fortim ...

E, evidentemente, tais cuidados de segurança e privacidade têm de ser integrados no projecto da habitação e do edifício, e desejavelmente devem contribuir para a sua qualidade global, pois são aspectos indissociáveis de boas condições habitacionais.




Vãos exteriores "estanques" e com abertura controlada

É fundamental que os vãos exteriores sejam estanques ao ar, à água da chuva e ao ruído (janelas de peito e de sacada, portas, respectivos peitoris, soleiras e ligações aos quadros dos vãos).

Esta é uma exigência básica, seja considerando todos os aspectos de relação visual e de conforto ambiental (isolamento térmico e impermeabilização), seja considerando o bem-estar doméstico, que tudo tem a ganhar com a possibilidade de nos podermos isolar de ruídos exteriores desagradáveis e incómodos (por exemplo o ruído do tráfego intenso, do vento e da chuva).

Mas é igualmente fundamental que os vãos exteriores não desperdicem a possibilidade de serem elementos de captação de luz, sol e ar renovado e fresco, e para tal é fundamental que existam elementos de controlo dessa luz, dessa radiação solar e desse ar, e que tais dispositivos sejam realmente eficazes e fáceis de usar.

E é também muito importante que os vãos exteriores envidraçados tenham uma manutenção e uma limpeza simplificadas, pois caso contrário os benefícios de uma boa fenestração ficarão muito diminuídos; e não tenhamos dúvida que o projecto tem de prever tais condições de manutenção e limpeza.

As janelas peito e de sacada podem ser de variados tipos funcionais e dimensionais, apresentarem diferentes características gerais de aspecto, disposição e configuração e estarem conjugadas com diversos tipos de elementos complementares (ex., bandeiras superiores ou laterais manobráveis). Não faz qualquer sentido é considerar-se "um vão" como um simples "buraco envidraçado", sem se contemplar a sua solução de funcionamento, seja em termos de controlo de luz e de capacidade de ventilação, seja considerando a sua manutenção e limpeza.

Tal como já se referiu uma janela não é apenas um vão transparente, é também o seu aproveitamento e controlo em termos de luz, insolação, ventilação, vistas exteriores, privacidade interior e segurança no uso e contra intrusões; só janelas em que todas estas facetas estejam adequadamente solucionadas, em termos funcionais e de imagem arquitectónica, serão janelas bem projectadas, e não é fácil.


Escolha e enquadramento da vistas sobre o exterior.

Tal como apontou Charles Moore: "As vistas existem já, a única habilidade está na sua captura através de janelas (quadros), a partir do interior. As vistas de exteriores assemelham-se às perspectivas que podemos apreciar em quadros pendurados nas paredes, mas mudam com as estações do ano e constantemente (estão vivas)...permitem a entrada do habitante na perspectiva exterior...". (1)

E esta é uma frase fundamental, que associa aos aspectos de conforto ambiental, assegurados pelos vãos exteriores, uma outra carga conceptual com idêntica importância: a captura, o enquadramento e a valorização de vistas exteriores, proporcionando a sua fruição pelos habitantes. Mas, infelizmente, todos conhecemos casos de janelas ou de "não-janelas" que, nem proporcionam "sol, luz e ar", nem nos facultam vistas e estimulantes; e há ainda aquelas famigeradas grandes paredes "cegas", que tão bem ficam nos desenhos de projecto e que, por acaso, são contíguas a vistas excepcionais, e ainda por cima a orientação de tais janelas seria óptima - tal não se compreende e não se deveria aceitar.

Considerando agora um certo carácter mais formal que pode existir no desenvolvimento dos vãos domésticos gostaria de referir que o único limite ao seu desenvolvimento deveria ser a boa mobilaridade do interior; mas aqui até há situações contrárias, em que o ritmo de uma dada solução de fachada/janelas produz compartimentos domésticos quase inúteis - enfim!

Sobre o partido formal da fenestração ele já foi aproximado nos aspectos da apropriação através do interessante povoamento de vãos profundos e amplos com variados objectos, numa opção que tanto identifica o interior doméstico, como o projecta um pouco sobre a respectiva vizinhança. Quanto a outras matérias formais e construtivas associadas ao tratamento exterior. e também interior, dos vãos elas são de grande importância arquitectónica, mas ligam-se essencialmente ao muno da concepção de cada solução, pelo que não serão aqui comentadas.


Gradação e melhor reflexão da luz no interior

Segundo Christopher Alexander, os vãos de janelas com arestas interiores ortogonais e aguçadas produzem desagradáveis (encandeantes) contrastes de luz (muito brilho/linha de escuridão) (2); e este autor considera que vãos de janela "fundos", cerca de 0.25/0.30m de profundidade e não ortogonais (ângulos de 50/60º com os planos das paredes interiores), proporcionam zonas de luz natural com intensidades intermédias, que reduzem os contrastes bruscos de luz e aumentam a reflexão da luz natural, tornando o espaço interior mais agradavelmente visível nos seus pormenores.

E cá estamos na aproximação aos referidos e tão apropriáveis vãos fundos, e salienta-se que, ultimamente, com as crescentes exigências de isolamento térmico, tais profundidades voltaram a poder ser correntes; e então nas áreas da reabilitação elas são casos correntes.


Sobre a racionalidade ou a subdivisão das zonas envidraçadas

Segundo Christopher Alexander as janelas amplas e com grandes chapas de vidro contínuas proporcionam vistas uniformes, enquanto várias janelas relativamente estreitas e verticais oferecem vistas diferentes.

Embora esta reflexão seja interessante, julga-se que ela pode ser tomada numa perspectiva ampla, direccionada para uma orgânica previsão da fenestração exterior, que também tem de levar em conta o custo inicial e de eventual substituição de grandes superfícies envidraçadas, assim como os custos iniciais de protecção (contra intempéries e contra intrusão) dos grandes vãos envidraçados.

Notas:

(1) Charles Moore; Gerard Allen; Donlyn Lyndon, "La Casa: Forma y Diseño", p. 101.

(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 913 e 914.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 637

Caracterização geral dos vãos exteriores II


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 09, 2018

Caracterização geral dos vãos exteriores I - Infohabitar 636


Infohabitar, Ano XIV, n.º 636


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CIX

Sobre a caracterizaçação dos vãos exteriores importa referir, essencialmente, que eles têm uma enorme importância em termos de conforto ambiental doméstico, em termos de luz, insolação, ventilação, isolamento acústico e abertura de vistas exteriores, e que, portanto, têm de ser muio bem concebidos em termos dimensionais e funcionais ao serviço de todos esses fundamentais objectivos de melhor habitabilidade e vivência doméstica- e para tal há uma enorme variedade de tipos de tipos gerais de janelas (1): levantável, giratório, rebatível, basculante, pivotante, de guilhotina; e de correr.
Não faz, portanto, qualquer sentido que o vão exterior seja considerado apenas como elemento de composição da fachada, há que harmonizar a sua dupla função e, sendo necessário, haverá que privilegiar a sua função "interior", não havendo qualquer dúvida de que uma boa janela exige um apurado cuidado de concepção.
Pormenorização geral dos vãos exteriores
Os vãos exteriores de peito e de sacada são, muito provavelmente, tão importantes na satisfação doméstica, quanto o espaço interior em que se conjugam; e haverá, muito provavelmente, "mecanismos" de compensação que acabam por funcionar e que põem em relevo o enrme problema criado por projectos de habitações dimensionalmente exíguas, gloabelmente mal dimensionadas e mal orientadas, mas para além de tuso isto, mal servidas por janelas exíguas, mal orientadas e pobremente desenhadas em todos aqueles aspectos associados às matérias do conforto ambiental (luz natural abundante, controlo de luz e de temperatura, ventilação e isolamento sonoro) e ao desenvolvimento de verdadeiros "lugares-janela".
Os vão exteriores são fundamentais na criação de um espaço doméstico que associe funcionalidade, segurança, conforto ambiental e essenciais aspectos de comunicabilidade com o exterior e de apropriação; uma importância claramente subalternizada coma excepção das boas arquitecturas.


Não é fácil fazer um adequado mapa "global" de possíveis vãos exteriores, pois as janelas - de peito e de sacada - têm de garantir condições que são, por vezes, antagónicas como é o caso da segurança contra quedas e contra intrusões, a possibilidade de obscurecimento do interior doméstico e o seu eficaz isolamento em termos de temperatura e contra o ruído exterior, e os referidos aspectos de grande relação com o exterior natural e urbano, aspectos estes também associados ao uso intenso dos espaços exteriores privativos e dos riquíssimos limares de transição interior/exterior que muito ficarão a dever  ao desenvolvimento de boas soluções de janelas e janelões; e com tudo isto há que harmonizar os custos, tradicionalmente elevados nesta parte da obra.
Podemos dizer que uma (muito) boa janela é um verdadeiro "tratado", pois assegura vistas e outras relações humanas entre interior e exterior, isolamento térmico e contra os ruídos do exterior, ganhos térmicos e ganhos de insolação controlados e bem distintos no Inverno e no Verão, ventilação controlada do respectivo espaço doméstico, considerando que este assume um papel específico na necessária solução global de ventilação da habitação, e também assegura adequadas condições de segurança contra riscos de queda e intrusões e, finalmente, assegura um importantíssimo papel seja na funcionalidade e na apropriação do respectivo espaços doméstico que integra, seja mesmo no nível de atractividade e de identidade que caracteriza o respectivo edifício. E, naturalmente, uma "má janela", como se pode concluir é quase como um falhanço crítico na qualidade global do projecto e na sua influência na satisfação dos respectivos habitantes; e, infelizmente, não é pouco frequente seja a associação crítica entre maus projectos gerais e de janelas, seja a não valorização de um bom projecto geral, ou mesmo o seu muito sensível empobrecimento através de más soluções de janelas.
As janelas domésticas e os seus elementos de regulação devem ter, assim, designadamente, as seguintes características:

- proporcionarem abundante luz natural e radiação solar equilibrada manobra;

- isolarem do ruído e do calor do Verão;

- terem limpeza funcional e seguras e protecções reguláveis do interior e com facilidade;

- terem "bandeiras" de ventilação bem posicionadas e reguláveis, proporcionando ventilação cruzada entre compartimentos e o encaminhamento do ar mais para o tecto (para "varrer" o ar quente que aí se pode acumular), ou mais para baixo (refrescando directamente os habitantes);

- proporcionarem vistas exteriores agradáveis;

- poderem ser encerradas para proporcionarem segurança, privacidade e regulação da luz natural;

- participarem, activamente, seja na boa capacidade mobilável do respectivo compartimento, seja nas boas capacidades funcionais - luz natural e posicionamento relativo - das actividades aí potencialmente mais frequentes e mesmo na respectiva capacidade de apropriação e de atractividade, designadamente, pela expressão reforçada das suas margens - o exemplo desta capacidade é-nos proporcionado por muitas excelentes janelas de tantas habitações mais antigas;

- serem seguras na sua utilização habitual, considerando-se, designadamente, o seu uso por crianças;

- e, naturalmente, estarem, perfeitamente integradas no equilíbrio visual e no partido arquitectónico do respectivo projecto - condição básica e que poderia estar, aqui, ausente, pois trata-se de matéria realmente essencial e primária num bom projecto.
  
Todos reconhecemos a capacidade de atractividade interior e exterior dos vãos exteriores, uma capacidade que, no entanto, está pouco expressa na prática corrente e, nestas matérias há "segredos" importantes entre os quais e segundo Alexander se saçienta o reforço do tratamento das margens dos vãos, e nomeadamente dos exteriores, que  corresponde à evidenciação do natural reforço que se tem de aplicar em torno de uma certa zona de um pano de parede que se pretende abrir e tratar como janela ou porta; de certo modo correspondendo a um desvio e a uma concentração de linhas de força, tal como refere Alexander. (2)
De certa forma quando nos concentramos nos vãos exteriores há que considerar reforços de visibilidade, de profundidades e de transparências.
A profundidade aparente de um vão exterior é muito importante, criando-se com os seus elementos de enquadramento e com outros elementos suplementares, como os encalços e mesmo as cortinas, "um pequeno mundo intermédio ou de limiar", entre o exterior público e o nosso "santuário" doméstico interior, que fica bem destacado, afastado e protegido.
Tal como se refere num estudo do LNEC já aqui, várias vezes, citado (ITA 2), desde que exista algum espaço nesse limiar, ele pode ser povoado e habitado, por plantas e objectos pessoais e domésticos (ex., molduras com fotografias da família), situação esta que proporciona transições e ligações entre espaços interiores e exteriores (ex., vários planos de plantas, interiores e exteriores, privadas ou públicas) e constitui uma barreira psicológica de protecção do nosso espaço doméstico; outra função básica destes espaços é a marcação doméstica das fachadas, para além da sua, natural, marcação pessoal (ex., aquela janela igual às outras, mas com uma planta bem identificável, uma determinada cor nas cortinas e uma resma de livros, é a nossa janela).
E há que sublinhar que, naturalmente, nada disto acontece em janelas simplesmente recortadas e "chapadas" nas paredes, interior e exteriormente, que são meros intervalos ou "ocos" da construção; desta forma perde-se todo um importantíssimo mundo de escalas reduzidas que marcam limiares e buffers que, tanto protegem, até termicamente, como marcam e que podem ser excelentes locais de identidade e apropriação, pois têm alguma, mitigada, visibilidade pública, estando em pisos pouco elevados - assunto este que merecerá posterior e específico desenvolvimento - e porque são assumidos com naturalidade como espaços positivamente "residuais"; e nesta matéria pode-se comentar que se trata de espaços hoje construtivamente sem sentido, o que é verdade, mas não deixando de ser verdade que aquelas excelentes funções de protecção e identificação marginal continuam a fazer todo o sentido, podendo justificar a sua "reconstituição" essencialmente formal, e independente dos aspectos construtivos.
Importa sublinhar que a fenestração do habitar deve adequar-se à altura a que é aplicada no edifício, tanto porque quanto mais abaixo estiver maior área envidraçada é necessária para se obterem os mesmos níveis de luz natural interior, como porque são diversas as relações visuais que caracterizam a relação do interior sobre o exterior, conforme o nível em que se está; e estes aspectos de desenho pormenorizado são elementos estratégicos na caracterização da solução, salientando-se que aqui não se defende a sistemática divesificação da fenestração, conforme os seus níveis de aplicação, apenas que se tenha em atenção o que acabou de ser referido, até, eventualmente, no estudo que se fala de um vão-tipo optimizado e aplicável de forma muito generalizada. FIG
A fenestração térrea habitacional e próxima do nível térreo exige uma concepção específica cuidada de modo a que se harmonizem boas condições de iluminação natural e vistas com aspectos de segurança contra intrusões e de privacidade visual, sendo muito provável o interesse de se desenvolverem desníveis e interposições de espaços e elementos estratégicos, assim como um "espessar" do vão, ele próprio elemento de primeira linha na protecção visual que proporciona ao interior doméstico. E não tenhamos dúvidas que todos estes cuidados são elementos que reforçam a força de embasamento e o carácter do respectivo edifício.

Na próxima semana avançaremos para aspectos mais específicos do "desenho" dos vãos exteriores.
Notas:
(1)  Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 111.

(2)   Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 919 e 920.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 636

Caracterização geral dos vãos exteriores I


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
abc@lnec.pt

Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, abril 02, 2018

Alguns esboços recentes de pássaros

Ainda no período de Páscoa, a Infohabitar publica alguns esboços recentes sobre o tema dos pássaros e realizados com base na observação directa.
Na próxima semana a nossa revista retomará as suas edições habituais e numeradas.

Saudações calorosas,

António Baptista Coelho
Editor 


















segunda-feira, março 26, 2018

Uma Páscoa feliz para todos os leitores e suas famílias são os desejos da revista Infohabitar e da associação GHabitar,



As edições habituais da nossa revista serão retomadas depois da Páscoa,

Saudações amigas,
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar

segunda-feira, março 19, 2018

Pequenos grandes mundos do pormenor doméstico - Infohabitar 635


Infohabitar, Ano XIV, n.º 635



Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CVIII

Pequenos grandes mundos do pormenor doméstico

Sobre o mundo do detalhe doméstico

O que aqui se irá comentar, em seguida, sobre o detalhe doméstico refere-se, essencialmente, a matérias suplementares, ou melhor dito, paralelas, às directamente associadas aos espaços da habitação,  globalmente bem distintas dos aspectos funcionais domésticos, que se considera terem sido já amplamente visados em diversos estudos, e privilegiando determinadas notas associadas ás opções de Arquitectura interior e ao seu diálogo com os habitantes, sempre ao serviço das opções gerais de adequação, adaptação/versatilidade e apropriação/identificação, que se considera serem objectivos fundamentais a redescobrir nas soluções domésticas.

Os mundos do pormenor doméstico

Pela sua importância serão primeiro abordados os aspectos ligados à criação de vários tipos de "lugares" ou "sítios" domésticos específicos, quase sempre, não coincidentes com determinados compartimentos ou espaços da habitação.
Em próximos artigos desta série serão abordados, com o mercido desenvolvimento, os vãos exteriores, considerando-se a sua enorme importância na qualidade arquitectónica e vivencial habitacional, seguindo-se os diversos aspectos que apoiam na criação de “sítios” domésticos muito específicos, depois os aspectos cruciais e por vezes insuspeitados do cromatismo residencial, em seguida, os aspectos de maior pormenor ligados à arrumação doméstica, depois, algumas pontes de ligação com a construção, os equipamentos e as instalações e, finalmente, uma abordagem complementar e sempre necessariamente "em aberto" de outros aspectos de pormenorização, que, conjuntamente com aqueles aspectos e em grande integração com espaços domésticos considerados como bem desenvolvidos.
Todos estes elementos constituintes do espaço habitacional privado são protagonistas na construção de um estimulante mundo de interioridade doméstica, marcado pela apropriação, pelo bem-estar, pela identidade pessoal e familiar, e por um "sentido doméstico" ou de verdadeira "concha", tal como tão bem referiu Amália Rodrigues, que não é fácil de desenvolver mas que tem enorme importância na felicidade que podemos gozar na nossa habitação.
De certa forma parece haver elementos que, apondo-se, caracterizando e marcando os espaços domésticos, ao nível do pormenor, são muito importantes para fazer passar o nível de satisfação doméstica de um patamar meramente adequado/funcional para um outro patamar que é em boa parte responsável pelas tais casas felizes e que nos ajudam a ser felizes.
Sob este tema iremos aqui paulatinamente considerando, essencialmente, aspectos de arquitectura de interior, associados ao desenvolvimento de: paredes; pavimentos; vãos de porta; guardas, parapeitos e peitoris; isolamentos; equipamentos; instalações; bay-windows e outros "lugares-janela"; floreiras; mobília encastrada; e outros pormenores.
E a ideia é apontar, aqui, aspectos de pormenor que mais fácil e naturalmente proporcionam ambientes domésticos estimulantes, e não realizar uma abordagem sistemática de todos os elementos que aqui podem ser previstos.


Calma no uso pormenorizado da habitação

Toda esta faceta de abordagem à qualidade habitacional depende da possibilidade de haver alguma calma na apropriação da habitação pelos seus habitantes, uma calma que fica evidenciada no seguinte texto, que foi escrito algumas semanas após uma mudança de casa.
"Fim de tarde. Sentado no sofá  de canto, por trás da mesa de abas, leio, finalmente o jornal matinal. Um lugar preferido, os meus filhos definiram outros sítios de preferência mais na ponta do sofá  grande ou no cadeirão estofado, a Isabel sente-se melhor no maple repousando os braços e gozando, também, a luz quente e baixa do cavalo/candeeiro em ferro forjado. Os sítios da casa vão, gradualmente, tendo nomes e chamando por certos usos, mas é preciso dar um certo tempo redondo para que a nova casa nos reconheça e para que nós também a possamos conhecer."
E uma calma no uso intenso da casa que estará, sempre e naturalmente, ligada a algum desafogo espacial, ou a um desafogo pelo menos mínimo no usufruto doméstico, que tem a ver não apenas com o respectivo espaço interior, mas também com adequadas condições de relação com o exterior (bons vãos de janela), de conforto ambiental (boa luz natural e bom isolamento térmico e sonoro) e de possibilidade de uso do próprio exterior contíguo; estando este, pelo menos, minimamente composto, equipado e limpo, e sendo o exterior, pelo menos, minimamente motivador do seu próprio uso, e aqui podemos citar Alain Sarfati, quando este  explicita o prazer que espera oferecer aos habitantes propondo percursos embebidos no habitat: “o convite à descoberta, à exploração exprime-se no atravessar de diferentes passagens, ligações, escadas, galerias, áleas e caminhos”. (1)

Vários tipos de "lugares" ou "sítios" domésticos específicos

Tal como refere o arquitecto Herman Hertzberger, nas suas Lições de Arquitectura (2), citando Aldo van Eyck, é fundamental fazer “de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme”; e como se partilha inteiramente esta ideia, de uma casa, uma habitação, serem verdadeiras cidades “em miniatura”; a casa tem de ser realmente uma porção de lugares, mutuamente bem integrados, mas individual e positivamente caracterizados, porque úteis, mas também carregados de sentido doméstico.
E não tenhamos dúvidas de que este mosaico de sítios/lugares constituintes de uma habitação não se esgota nos respectivos espaços e compartimentos, tem de ter uma "célula" mais fina, naturalmente mais fácil de concretizar em grandes habitações, mas que tem, obrigatoriamente de se verificar até nas habitações mínimas, e podemos mesmo dizer que nestas habitações tal qualidade de "grão fino", composto por pequenos lugares domésticos, é fundamental até, também, para suavizar e se tornar muito mais aceitável até a eventual escassez espacial.
Por estas razões iremos, em próximos artigos desta série editorial, numa viagem informal e de "sentido aberto" ou dinâmico por alguns dos sítios/lugares domésticos que nos fazem parar para pensar, para sentar e para olhar, quando visitamos uma habitação que vale a pena; pois nas outras um relance rápido chega!
E há, ainda, que sublinhar ser possível "montar" uma habitação "funcionalmente mínima", porque composta por poucos espaços e compartimentos principais e correntes - como quartos e corredores -, através de um amplo espaço multifuncional, caracterizado por excelentes condições de conforto ambiental, pormenorização e durabilidade, em que as diversas funções domésticas se associem muito mais a lugares/sítios dimensionalmente reduzidos e pouco ou nada compartimentados, do que a espaços e compartimentos "clássicos"; e sublinha-se o interesse que esta perspectiva de desenvolvimento doméstico tem quando pensamos no habitar privado de pessoas sós, casais e eventualmente pessoas idosas que optem por este tipo de habitar.
Esta associação entre habitações pouco compartimentadas e integradas por variados lugares/sítios  e o habitar privado de pessoas sós ou casais, prende-se ao desenvolvimento da habitação como uma verdadeira segunda pele, que sirva o modo como gostamos de viver/habitar e que sirva e evidencie, naturalmente, a nossa identidade, sendo aqui exemplificada, nas palavras de José Pacheco Pereira (2005), sobre a casa/sala/biblioteca, bem viva e caracterizada, onde vivia Eugénio Andrade:
“Uma sala coberta de livros, ao mesmo tempo sala de ler, escrever, de comer, com uma cozinha incrustada, … o quarto, com janela para a Duque de Palmela, uma rua silenciosa quase sem trânsito, numa parte do Porto perdida do centro, mesmo estando perto do centro... Um desenho de Jean Cocteau no corredor… Esta foi sempre a sua verdadeira casa.” (3)
E, já agora, o grande Jorge Luís Borges,  também tinha uma sala com uma grande mesa onde tudo acontecia - vida, trabalho e convívio - tal como salientou Raúl Hestnes Ferreira, na 4.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar. (4)

Notas:
(1) Monique Eleb e Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, p. 239
(2) Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura, São Paulo, Martins Fontes, 1996 (1991),p.193.
(3) José Pacheco Pereira, “Rua Duque de Palmela 111 (Eugénio de Andrade); «Uma sala coberta de livros…»”, Abrupto, Early Morning Blogs n.º 520, 17-06-2005, http://abrupto.blogspot.com/ 1045bqi e 269c
(4) 4ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, em 22 de Janeiro de 2006 no Auditório da sede do INH em Lisboa.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 635

Pequenos grandes mundos do pormenor doméstico

Infohabitar
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segunda-feira, março 12, 2018

Reflexão geral sobre os subespaços da habitação - Infohabitar 634

Uma reflexão geral sobre os subespaços da habitação



Infohabitar, Ano XIV, n.º 634

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CVII


Importância da previsão de cantos e recantos domésticos

Os cantos e recantos domésticos na sua muito rica variedade formal e funcional, constituem elementos identificadores e apropriáveis/apropriadores do uso/satisfação dos moradores:
- para além de serem elementos básicos de adaptabilidade global e pormenorizada de uma dada habitação a uma dada família e, mesmo, e bem importante, de adaptabilidade individual a cada um dos diversos habitantes que integram essa família;
- constituem, eles próprios, factores dinamizadores de associações, mais ou menos inovadoras, entre diversas funções e entre diversas actividades da habitação; condição esta que vai marcar a caracterização dessa habitação, fazendo-a, desejavelmente, participar num grande leque de oferta habitacional que se deseja possa vir a ser, agradavelmente, diversificado e tornado expressivamente estimulante.
Importa, ainda, referir que as novidades nesta área associada a um adequado desenvolvimento de pequenos subespaços domésticos (cantos e recantos ou partes de compartimentos), apenas deveriam ter, como limite, a imaginação e a capacidade de apropriação das famílias e das pessoas individualmente, mas dependem, evidentemente, de espaços de habitar que tenham, embebidas, as potencialidades para o apoio a essa quase infinidade de possibilidades de uso, o que talvez até nem seja especialmente difícil, mas apenas quando consideramos soluções domésticas arquitectonicamente bem qualificadas.
Esta expressiva dependência arquitectónica deve reflectir-se, tanto na disponibilização de soluções habitacionais “de base” que sejam extremamente versáteis e ricas na sua posterior e diversificada pormenorização e ocupação, como na, também importante e conjugada, disponibilização de muito diversificadas situações de pormenorização e ocupação “de referência”, que possam ser muito adequadamente “sobrepostas” às referidas soluções habitacionais “de base”.
Um tal processo ou “jogo” de pormenorização e ocupação habitacional depende, essencialmente, seja de um dimensionamento adaptável a diversas ocupações, seja de uma pormenorização cuidada, em termos de uma presença/imagem adequada a diversos tipos de ocupação e apropriação dos compartimentos, o que se obtém com soluções que “jogam” bem com diversas ocupações e que proporcionam uma grande e diversificada capacidade de recepção “pequenos usos” complementares e até muito “pessoais”; como é, por exemplo, o caso de vãos de janelas fundos, muito adequados a receberem os mais diversos tipos muito pormenorizados e apropriados de utilização.
E nunca será excessivo registar que numa situação oposta, marcada por espaços muito pouco apropriáveis em termos de subespaços (partes de compartimentos), há soluções de arquitectura doméstica cujos compartimentos apenas aceitam uma apropriação extremamente reduzida (ou quase nula) e funcionalmente muito limitada.

Habitação como sítio de expressão de identidade e de apropriação

Estrategicamente, e como ponte de ligação à reflexão que há que fazer, subsequentemente, sobre os aspectos associados ao detalhe doméstico, vale a pena referir que se julga que o mundo doméstico deve ser, cada vez mais, um sítio de expressão de modos de vida específicos e de identidades.
De certa forma é usar a habitação como sítio de uma máxima liberdade, mas para tal há que investir numa possibilidade de repartição estratégica do espaço doméstico, afeiçoando-o a uma partilha de diversos hábitos de vida em espaços contíguos, num desenvolvimento que também se harmoniza com as situações frequentes de convivência familiar entre adultos e jovens adultos durante longos períodos de tempo.
Esta perspectiva tem ou deve ter reflexos directos, seja na organização doméstica, suscitando soluções com um máximo de autonomias de vivência e, sempre que possível, de acessibilidade, seja numa espaciosidade que se deve afastar claramente dos limiares mínimos e que tem de favorecer dimensionamentos muito versáteis em termos de ocupação por mobiliário e que propiciem bons panos de paredes bem apropriáveis – por exemplo, através da ocupação desses panos de parede com estantes e com variados elementos artísticos e gráficos (quadros, gravuras, etc.).
Por outro lado, este caminho é também estratégico no sentido de poder favorecer conversões domésticas significativas em resposta a modos de vida de pessoas que desejem grande funcionalidade e facilidade na execução das lides domésticas e condições especiais e muito versáteis de mobilidade e funcionalidade doméstica – e aqui não se está a pensar, especificamente, em condicionados na mobilidade críticos, mas sim numa ampla franja de habitantes, idosos e jovens, que muito ganham com tais condições.
De certa forma estamos na altura de passar das soluções domésticas estereotipadas, rigidamente hierarquizadas em termos funcionais e ambientais e monotonamente caracterizadas em termos de pormenores e de acabamentos, para uma família muito alargada de soluções domésticas diversificadas e adaptáveis, estruturadas não em torno de uma família-tipo teórica, que, “maquinalmente”, realizaria as mesmas actividades nas mesmas horas e nos mesmos espaços, mas sim em torno de "indivíduos", que irão desenvolvendo a sua personalidade e os seus desejos e gostos/hábitos domésticos razoavelmente específicos, distintos e mutantes, mas mantendo, naturalmente, sítios de convívio e estadia comum no espaço doméstico; uma opção que é, naturalmente, incompatível com as referidas estruturas domésticas rigidamente hierarquizadas.

Do “núcleo/célula” habitacional individual (ou do casal) ao edifício sem passar pela habitação

E esta diversificação profunda do núcleo de concepção do espaço doméstico também pode e deve marcar a própria organização do edifício multifamiliar e a estruturação e o desenvolvimento, equipamento e pormenorização dos seus espaços comuns; será este o desafio de “escala maior”, mas que deve decorrer, directamente, desta reflexão.
Realmente, o adequado desenvolvimento, num espaço relativamente contido de um espaço doméstico “individualizado” – para uma pessoa só ou para um casal – e devida e ricamente subespacializado, tal como se tem vindo a apontar neste texto, é condição de base muito adequada para que se possa fazer um “salto” dimensional desta célula para a sua integração num edifício com espaços e equipamentos de uso comum, sem se passar, obrigatoriamente, pelo nível da habitação.
Pensa-se, como é evidente, em verdadeiros edifícios de “habitação colectiva” e talvez, aqui, sim, possa ser devidamente utilizado este conceito, onde um determinado número de unidades para pessoas sós e para casais, que podem ser diversificadas em termos dimensionais e funcionais, partilham um leque, também muito diversificado de espaços e equipamentos de uso comum, e mesmo interessantes equipamentos de uso público (ex., lavandaria, restaurante, biblioteca e centro de documentação, espaços de trabalho profissional, ginásio, etc., etc.).
Esta é uma matéria que justifica desenvolvimento específico, e, portanto, nesta reflexão apenas se sublinha que talvez o principal aspecto verdadeiramente viabilizador deste tipo de intervenções e referido à própria caracterização dessas “células individuais”, seja exactamente a riqueza subespacial e subfuncional das mesmas, uma riqueza que terá de ser, necessariamente, servida por um excelente projecto arquitectónico e muito bem pormenorizado.
Não seria necessário dizê-lo: mas as situações contrárias, de produção de “células individuais” monofuncionais e arquitectonicamente pobres, irão gerar pouco mais do que dormitórios.

É, ainda, oportuno referir, desde já, que outros dos principais aspectos verdadeiramente viabilizadores deste tipo de intervenções de “habitação colectiva” se referem à sua adequada e “central” integração urbana e à sua natural abertura à comunidade local. 

Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XIV, n.º 634

Uma reflexão geral sobre os subespaços da habitação

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
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Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.