segunda-feira, abril 30, 2018

Pequenos sítios domésticos I: dos lugares de sentar e mesa aos (re)cantos “activos” – Infohabitar 639

Infohabitar, Ano XIV, n.º 639

Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CXII


por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Introdução sobre os pequenos sítios domésticos

(Nota prévia: por uma questão de autonomia de leitura a introdução será repetida nos vários artigos sobre esta temática dos pequenos sítios domésticos)
Para além dos habituais espaços domésticos globalmente associados a compartimentos mais de estar ou mais de circulação e/ou recepção e que bem conhecemos, uma boa habitação, que nos “diga” realmente algo, para além de, simplesmente, nos abrigar, deve integrar, de forma muito natural, diversos tipos de sítios domésticos, entre os quais se contam os “lugares janela”, já desenvolvidos, mas cuja variedade dependerá da capacidade de quem bem projecta e de quem bem habita esse espaço doméstico.
Mas não tenhamos quaisquer dúvidas de que essa capacidade de adequada e estimulante integração de múltiplos pequenos sítios domésticos, propícios a variadas conjugações de microfunções e microapropriações depende em boa parte de um adequado, pormenorizado e rico/imaginativo projecto de Arquitectura, que facilitará e até incentivará tais condições, enquanto, se não existir esse projecto bem qualificado, quando o mundo doméstico é “manejado” de forma “maquinal” e rigidamente “unificada”, os resultados no uso e apropriação da habitação tenderão a ser muito “áridos” e funcional e formalmente muito pobres.
De certa forma aquilo que se aplica/acontece ao nível urbano e relativo aos aspectos de localização/integração, que têm enorme importância na satisfação dos habitantes – resumindo-se, por vezes, na ideia de que o que interesse primeiro é o sítio, depois o sítio e ainda depois o sítio … -  é algo que acontecerá, depois, ao nível do edifício, quando ele integra habitações com a riqueza da conjugação de variados sítios domésticos, e, depois, ao próprio nível doméstico, considerado, e bem, como a conjugação de variados e ricos pequenos sítios que nos servem, marcam e que apropriamos.
Em seguida iremos comentar diversos “pequenos sítios domésticos”, sem a ambição de os esgotarmos a todos, naturalmente; pois a sua diversidade está apenas dependente da sensibilidade e da imaginação de quem os projecta e de quem os habita – mas mesmo a este último nível é de grande importância o desenvolvimento da reflexão dos projectistas sobre estas matérias, reflexões estas que naturalmente, sendo feitas de forma clara/acessível, irão municiar/influenciar uma grande e adequada riqueza nessa apropriação pelos habitantes.


Lugares de sentar suplementares e agradáveis

Praticamente tão importante como criar determinadas quantidades de espaço interior doméstico é criar espaços que integrem naturalmente sítios onde, depois de se introduzirem os elementos de mobiliário correntes se possam colocar lugares de sentar suplementares e agradáveis, porque, por exemplo, perto de uma janela ou de uma mesa, ou bem orientados relativamente à televisão.
A suplementaridade destes lugares de sentar deve ser considerada em relação com o programa funcional corrente numa dada habitação, pois considera-se que deve haver uma disponibilização constante destes lugares de sentar e, inclusivamente, um seu cuidadoso tratamento, que os torne aliciantes.
Uma outra possibilidade bastante versátil é proporcionada por cadeiras dobráveis, que sejam usadas apenas quando necessárias, mas para tal é importante haver espaço para as arrumar de forma a que estejam sempre "à mão".

Lugares-mesa

Tal como referiu o arquitecto Hermann Hertzberger, numa palestra no LNEC em Maio de 2010, na concepção arquitectónica interior é fundamental proporcionar os mais diversos tipos de condições de integração de mesas dos mais diversos tipos. Afinal, as mesas são parceiras essenciais na dinamização e apoio ao desenvolvimento das mais diversas actividades, desde as refeições, às lides domésticas, ao trabalho profissional, ao lazer e à leitura.
De certa forma as mesas nunca serão de mais numa habitação, mas há que as integrar de forma adequada e elas consomem realmente espaço, mesmo quando escamoteáveis.
E os lugares-mesa obrigam naturalmente a cadeiras ou bancos de apoio, que eventualmente se poderão recolher debaixo das respectivas mesas.
Os conjuntos mesa/cadeiras escamoteáveis são, provavelmente, dos mais antigos elementos de mobiliário criados no apoio a uma vida doméstica que era marcada pelo nomadismo.

(Re)cantos "activos"

Por (re)cantos activos pretende-se definir um conceito de subespaços domésticos, que se integram noutros espaços ou compartimentos de maior dimensão, e cujas dimensões, configuração e proximidades específicas, designadamente, a determinadas zonas de actividades e a vãos de janela, lhes confere excelentes potencialidades para o exercício de variados usos funcionais ou de lazer, produzindo-se, em consequência, um evidente enriquecimentos do conjunto de actividades realizado nesse espaço ou compartimento em que o (re)canto se integra.
Salienta-se que estas condições não obrigam, nem a uma subdivisão do espaço principal, nem à demarcação física do (re)canto, que deverá ser marcado, essencialmente, pelo conjunto de elementos de mobiliário que o integram e por um determinado sentido de "cenário" funcional e/ou ambiental mais adequado à sua caracterização.
Assim se aplica, naturalmente, o referido fazer “de cada casa ... uma porção de lugares", objectivo que, aqui, será fazer de cada compartimento e espaço doméstico uma porção de lugares, bem conjugados, mas individualmente caracterizados e sempre carregados de sentido doméstico. E não tenhamos dúvida de que uma habitação constituída por espaços, cada um deles, integrados por uma "porção de lugares", será uma verdadeira habitação/cidade, adequada a cada um dos elementos do agregado, mas também à sua totalidade e às suas ampliações periódicas, com outros familiares e amigos.
A existência de (re)cantos em espaços e compartimentos, pode ser adequadamente fundamentada, nomeadamente, por critérios: funcionais (ex., desenvolvimento de actividades de apoio a usos estruturantes, como é o caso da instalação de uma pequena mesa de apoio a uma biblioteca) ; ambientais (ex., condições específicas de ventilação, insolação e iluminação natural, extremamente adequadas para determinados tipos de actividades); formais (ex., poder integrar mobiliário de família ou antiguidades); e paisagísticos (ex., proporcionar determinadas vistas, muito "dirigidas" e/ou "enquadradas" sobre o exterior próximo ou longínquo).
A adequada fundamentação, aqui considerada, para os (re)cantos domésticos, pode e deve ser reforçada por acumulações/concentrações desses critérios, acumulações estas que muito reforçam a imagem e o carácter de certos elementos/(re)cantos, o exemplo disto é dado pelas "bay-windows" que são justificáveis "à luz" de todos os tipos de critérios, que foram acima referidos.
Segundo Alexander conseguem-se ambientes atraentes e espaços muito íntimos, quando se faz variar a alturas do tecto, proporcionando-se arrumações sob zonas elevadas e sobre zonas rebaixadas (ex., criação de recantos de estar com um tecto falso bem rebaixado, aproveitando-se o desvão assim criado para arrumações e prateleiras - a altura útil conseguida nesses desvãos, para um pé-direito corrente, é de cerca de 0.60m - e previsão de zonas com pés-direitos muito altos, onde seja possível desenvolver zonas em galeria).
E não devemos esquecer que, tal como apontam Claire e Michel Duplay, o próprio mobiliário, quando atingindo grandes dimensões, pode criar "nichos" bem interessantes; uma possibilidade que é, actualmente, mais usada na concepção de espaços para crianças. ...
Finalmente sublinha-se que o emprego do termo (re)canto não significa que tais espaços tenham de ser desenvolvidos em zonas reentrantes dos compartimentos, referindo-se, assim, esse termo a uma sub-zona dimensionalmente reduzida e que não tem existência doméstica autonomizada do funcionamento do compartimento ou espaço principal em que se integra.
Notas:
(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 770 a 772.
(2) Claire e Michel Duplay, "Methode Ilustrée de Création Architecturale", p. 136.
Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 639

Pequenos sítios domésticos I: dos lugares de sentar e mesa aos (re)cantos “activos” – Infohabitar 639

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
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Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC.
Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



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